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Marina e Lina viraram feras, ótimo

(Elio  Gaspari)

 

Marina Silva e lina Vieira são dias mulheres que decidiram servir ao público, uma na militância política, outra nos quadros do Estado. Uma saiu da floresta onde viveu analfabeta até a adolescência. A outra, oriunda de família mais afortunada, teve a educação dos privilegiados. Em apenas uma semana tornaram-se personagens relevantes da vida nacional, lançando um pouco de luz sobre um fenômeno antigo, mas pouco reconhecido: a singularidade do gênero feminino no serviço público.

 

As mulheres viveram em posição secundária durante cinco séculos. A primeira médica brasileira, Maria Augusta generoso estrela, formou-se nos Estados Unidos em 1887. A primeira advogada diplomou-se em 1925 e só em 1982 Esther de Figueiredo Ferraz chegou ao Ministério da Educação. De lá pra cá esse jogo mudou. Centenas de milhares de brasileiras buscam o serviço público como caminho para a independência e  o reconhecimento profissional. Todas as generalizações são perigosas, inclusive esta, mas as mulheres independentes precisam do rigor, das normas e do respeito ao interesse público para proteger suas qualificações pessoais.

 

Mariana Silva e Lina Vieira saíram daquele pedaço da sociedade brasileira que os poderosos consideram irrelevante para o grande jogo do poder. Uma senadora do Acre, de fala mansa, não pode ter importância num assunto como a sucessão presidência. Quando ela abandonou o Ministério do meio Ambiente, tentou-se resolver o problema com uma substituição cenográfica, atribuindo-se seu desencanto a uma excentricidade amazônica. Deu errado e ela já avisara: “perco o pescoço, mas não perco o juízo”. Da mesma forma, uma secretária da Receita Federal pode ser dispensada como um lenço de papel, sem explicação respeitável. Bastaria murmurar que era incompetente e a senhora saberia seu lugar. Deu errado.

 

Os dois casos deixam uma lição para os sábios do poder nacional: o Brasil melhora quando uma mulher vira fera a serviço do Estado e elas sabem que, a certa altura de suas vidas, ou viram feras ou são tratadas com o respeito e admiração que se dá aos lenços da casa Hermes.

 

Duas mulheres mostraram à máquina do poder que as servidoras não devem levar desaforo para casa.

 

Publicado na Folha de São Paulo 16/8/09

 
 

 


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